O panelaço que tomou as ruas na Argentina nos dias 19 e 20 de dezembro
de 2001, com centenas de milhares de pessoas, não surpreendeu por
completo. Na última década, a corrupção de políticos e funcionários
públicos, as negociatas e vendas de empresas estatais, a destruição
sistemática da indústria, deixou milhares de pessoas desempregadas.
Protestos de desempregados têm ocupado ruas e estradas em todo o país.
O que havia de inédito nas manifestaçõoes ocorridas nas noites de
dezembro que derrubaram o presidente, foi a presença massiva das mulheres
nas ruas, batendo suas panelas.
A partir de então, mães com seus filhos, donas-de-casa, aposentadas,
professoras, assalariadas e pequenas proprietárias têm tido uma
participação ativa em cada assembléia de bairro e em cada mobilização.
O Sindicato de Dona-de- Casa de Santa Fé (SAC), que tem grande
credibilidade por sua longa
trajetória de trabalho de base e enfoque totalmente apartidário,
convocou mulheres para formar suas próprias assembléias. As praças de
alguns dos bairros mais pobres de Santa Fé encheram-se de mulheres com
suas reclamações e urgências cotidianas. Assim começou uma
organização autônoma e não-hierárquica, a Rede Inter-bairros de
Mulheres (RIM), onde todas as decisões são tomadas em assembléias.
As mulheres tomaram em suas mãos várias responsabilidades
abandonadas pelo Estado. Juntas elas lutam por suas dignidades e
realizam o que sozinhas não podem fazer: alocam suporte financeiro para
mulheres chefes de família, controlam o Centro de Saúde do bairro para
vítimas de violência doméstica, fazem compras de alimentos
coletivamente a fim de negociar preços mais baixos, comandam uma
cozinha que consegue alimentar 200 crianças, denunciam funcionários
públicos que negam subsídios e pensão alimentar às mulheres que não
são do seu partido ou se negam a dormir com eles...
O trabalho não remunerado dessas mulheres, a determinação e o
engenho, aliado à direção e o suporte de uma experiente e
comprometida organização de mulheres estão tornando possível a
sobrevivência a uma crise que deixou metade da população na miséria.