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Carta aberta aos governos latino-americanos que fazem parte da missão da ONU no Haiti

 

PARA O REGRESSO EM SEGURANÇA DO

ATIVISTA HAITIANO DOS DIREITOS HUMANOS
LOVINSKY PIERRE-ANTOINE E PARA ACABAR COM A VIOLÊNCIA
E A REPRESSÃO CONTRA O POVO HAITIANO.

 

Nós, cujos nomes assinamos abaixo, residentes da América Latina, apelamos aos nossos governos que insistam com a ONU e outras forças de segurança no Haiti para encontrar e fazer regressar o ativista haitiano dos direitos humanos Lovinsky Pierre-Antoine, raptado no dia 12 de agosto de 2007.

 

Também pedimos aos nossos governos para não participarem na ocupação da ONU no Haiti e ajudarem dessa maneira a acabar com a violência resultante e a repressão contra o povo haitiano. A sua bem-sucedida revolução em 1804 abriu o caminho para a libertação daqueles que estavam escravizados nas Américas e ajudou diretamente o Libertador sul-americano Simón Bolívar por duas vezes, dando-lhe refúgio e mandando-o de volta a seu país com navios e combatentes.

 

NOME                         PAÍS                ORGANIZAÇÃO                      E-MAIL

 

 

 

 

 

 

Escreva, ligue, envie um e-mail ou um fax ao seu governo pedindo-lhes para apresentar as suas ações no Haiti e perguntando o que têm feito para encontrar Lovinsky Pierre-Antoine.

 

* * * * *

 

No início de 2005, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, comandante das Forças de Estabilização da ONU no Haiti (MINUSTAH), testemunhou numa comissão do congresso no Brasil que “estamos sob forte pressão da comunidade internacional para fazer uso da violência”, citando o Canadá, a França e os Estados Unidos¹.

 

27 de Maio de 2008

 

Caros Amigos,

 

No dia 12 de Agosto de 2007, o nosso querido amigo e colega Lovinsky Pierre-Antoine foi raptado. Não foi visto desde então, mas temos boas razões para acreditar que ainda esteja vivo, e solicitamos-lhes vivamente que nos ajudem a insistir para o seu regresso em segurança.

 

Lovinsky Pierre-Antoine é o advogado dos menos favorecidos, especialmente mães solteiras e meninos de rua. Fundou a Fondasyon Trant Septanm para as vitimas dos golpes de estado de 1991 e 2004 contra Jean-Bertrand Aristide, o primeiro presidente democraticamente eleito no Haiti, muito querido pela maioria pobre. Lovinsky é membro do Lavalas, o movimento e partido do Presidente Aristide, e foi raptado após  reunir-se com uma delegação pelos direitos humanos, formada por norte-americanos e canadenses, em visita ao Haiti.

 

O Presidente Aristide (agora exilado na África do Sul), disse recentemente acerca de Lovinsky que se ele hoje estivesse livre, “a sua voz profunda e potente ecoaria os pedidos dos Haitianos e dos pobres do mundo pelo respeito ao direito fundamental da humanidade à comida e pelo fim da fome”. A congressista norte-americana Maxine Waters disse: “A continuação do desaparecimento de Lovinsky é, obviamente, uma grande tragédia pessoal, mas também é uma grande tragédia para o povo do Haiti”.

 

Depois do golpe norte-americano de 2004 contra o Presidente Aristide (apoiado pelo Canadá e pela França) a ONU concordou em enviar tropas para o Haiti, legitimando o golpe e responsabilizando-se pela lei e a ordem lá. O Brasil lidera a MINUSTAH, a Missão de Estabilização da ONU no Haiti. Enquanto a maior parte da mídia internacional e das ONGs louvaram os seus feitos, os habitantes das áreas mais desfavorecidas do Haiti, assim como jornalistas independentes, relataram massacres e violações cometidos impunemente por essas mesmas forças da ONU que dizem protegê-los.

 

Eles dizem que as periferias, igrejas comunitárias e organizações, que eram a chave para a derrota da infame ditadura Duvalier e para trazer Aristide ao poder, têm sido os alvos. Enquanto algumas tropas foram mandadas para os seus países após terem sofrido relações de violação, ninguém, tanto quanto sabemos, foi prosseguido pelos seus crimes. Ver : o filme de Kevin Pina “We Must Kill the Bandits” (“Temos de matar os Bandidos”) www.teledyol.net, a Comissão de Acção do Haiti “What’s going on in Haiti ?” (“O que se passa no Haiti ?”) www.haitisolidarity.net e artigos no Sunday Times On-Line Sri Lanka e no Washington Post.

 

O Brasil não é o único país a participar nesta ocupação vergonhosa e violenta. Países que contribuem com militares para as forças da ONU: Argentina, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Croácia, Equador, França, Guatemala, Jordânia, Marrocos, Nepal, Paquistão, Paraguai, Peru, Filipinas, Espanha, Sri Lanka, Estados Unidos e Uruguai. Países que contribuem com policiais e civis: Argentina, Benin, Brasil, Burkina Faso, Camarões, Canadá, República Centro-Africana, Chade, Chile, China, Colômbia, RD do Congo, Egito, El Salvador, França, Granada, Guiné, Jordânia, Madagascar, Mali, Ilhas Maurícias, Nepal, Niger, Nigéria, Paquistão, Filipinas, Romênia, Federação Russa, Ruanda, Senegal, Espanha, Sri Lanka, Togo, Turquia, Estados Unidos e Uruguai.2

 

São principalmente países latino-americanos, africanos e asiáticos que foram persuadidos a esta ocupação. Até países como a Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Paraguai, Espanha e Uruguai, cujos governos se diziam campeões dos direitos humanos, estão participando. Os países do Caribe, exceto Granada, não estão envolvidos – a Venezuela e os países da Caricom recusaram-se a reconhecer o “governo provisório” instalado pelos Estados Unidos após o golpe, e Cuba tem ajudado com médicos em vez de soldados.

 

O mundo tem uma dívida enorme para com o povo haitiano. A sua revolução de 1804 foi a primeira a abolir a escravatura, preparando o caminho para a emancipação de toda a América e reforçando os movimentos de libertação por toda a parte. O Haiti ajudou diretamente o Libertador sul-americano Simón Bolívar por duas vezes dando-lhe refúgio e mandando-o para seu país com navios e combatentes. Os haitianos apenas lhe pediram que trabalhasse para a abolição da escravatura. (O Presidente venezuelano Hugo Chávez reconheceu-o quando visitou o Haiti em Março 2007 depois de René Préval ter sido eleito Presidente. Lovinsky esteve implicado na organização da visita e Chávez foi recebido com entusiasmo pelos moradores da Cité Soleil e outras vizinhanças pobres.

 

A França impôs, então, uma dívida de reparação, forçando o Haiti a pagar pelas suas perdas de escravos e despesas incorridas na Revolução Haitiana – esses pagamentos continuaram até depois da Segunda Guerra Mundial.  Os Estados Unidos impuseram golpes, invasões e ditadores. Mataram milhares e forçaram muitos outros ao exílio. Uma minúscula elite haitiana aproveitou-se das oficinas clandestinas, que exploram uma população empobrecida, e da destruição da agricultura local para abrir caminho à importação do arroz americano. Com o aumento dos preços dos alimentos, muitos enfrentam agora a fome.

 

O povo do Haiti foi traído pelos governos dos países que ajudaram a criar, e por outros. Não podemos deixá-los impunes dessa traição. 

 

Temos feito uma vigília semanal na embaixada brasileira em Londres há 5 meses, pedindo qualquer informação que tivessem sobre Lovinsky Pierre-Antoine. Encontramos um muro de silêncio, e pior, o Brasil quer, claramente, lavar as mãos desse assunto apesar do seu papel proeminente no Haiti. O seu representante dos direitos humanos nos disse que estávamos a ladrar para a árvore errada e que devíamos pedir ao FMI ou ao Banco Mundial que coloquem recursos na reconstrução do Haiti para evitar que tais coisas voltassem a acontecer. Outro representante nos disse que não era com eles, que estavam “apenas fazendo o seu trabalho”.

 

Vigílias e outros protestos tomaram também lugar nos Estados Unidos e na região caribenha. A Amenistia Internacional publicou dois relatórios urgentes, mais de 2.100 pessoas de todas as partes do mundo assinaram uma petição, e uma lista crescente de notáveis do mundo inteiro apelaram pelo regresso em segurança de Lovinsky, incluindo: o Membro do Parlamento britânico John McDonnell, a congressista norte-americana Maxine Waters, os atores aclamados Danny Glover, Vanessa Redgrave e Martin Sheen, e a Pax Christi International.

 

O povo do Haiti nunca desistiu. Lovinsky Pierre-Antoine, o pai amado e o organizador comunitário, personifica a sua resistência revolucionária e a sua determinação. É hora de pagar a nossa dívida.

 

Perguntamos: “Brasil, por que estão no Haiti?”. Sindicatos latino-americanos, jornalistas e outros apoiam os seus governos para o retiro das suas tropas. Junte a sua voz às nossas. Proteste contra o envolvimento do seu governo no Haiti. Assine a petição acima.

 

 

Publicado por: Global Women Strike, Women of Colour in the Global Women’s Strike, Haiti Action Committee and Red Thread (Guyana).

 

Mais informação: www.globalwomenstrike.net   www.haitisolidarity.net

 

 

NOTA

 

1. No início de 2005, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, comandante das Forças de Estabilização da ONU no Haiti (MINUSTAH), testemunhou numa comissão do congresso no Brasil que “estamos sob forte pressão da comunidade internacional para fazer uso da violência”, citando o Canadá, a França e os Estados Unidos.

 

Mais tarde nesse mesmo ano, demitiu-se e em 1º de setembro de 2005, foi substituído pelo general Urano Teixeira da Matta Bacellar como comandante- em-chefe da MINUSTAH. No dia 7 de Janeiro de 2006, Bacellar foi encontrado morto no seu quarto de hotel. O seu substituto temporário, o General chileno Eduardo Aldunate Hermann foi criticado por ter se formado na Escola das Américas, e por ter servido nas forças brutais de Augusto Pinochet. Em outubro de 2005, o advogado de família de Carmelo Soria, um diplomata espanhol assassinado em 1976, colocou um pedido no sistema judicial chileno, exigindo que o General Eduardo Aldunate Herman fosse ouvido no caso Soria. Segundo o depoimento judicial do ex-agente da DINA, Carlos Labarca Sanhueza, o General Herman fazia parte da Brigada Mulchén,  unidade especial da DINA envolvida no assassinato de Soria. Segundo a filha de Carmelo Soria, o General Herman também esteve envolvido no assassinato do bioquímico da DINA Eugenio Berrios, encontrado morto em 1995.